Dr. Luiz Alberto Chaves de Oliveira
( Dr. LACO )
 
Tenho feito muitas palestras em grupos de mútua ajuda, escolas, igrejas, empresas e para outros públicos, das mais variadas idades, condições sociais e econômicas e, uma pergunta que sempre surge, se baseia na possibilidade dos filhos dos alcoólatras virem a ser dependentes do álcool também.
 
Muitas pesquisas epidemiológicas tem mostrado, que em famílias onde existe um caso de alcoolismo, a chance dos filhos virem a se tornar portadores desta doença, é 3 a 5 vezes maior que na população em geral. A explicação, para esta incidência muito aumentada, deve ser buscada em dois pontos fundamentais: a hereditariedade e o conjunto amplo de fatores ambientais que interferem com a instalação e desenvolvimento desta grave questão social.
 
E' preciso falar com conhecimento de causa, usando linguagem adequada, sem mentiras, com coragem, sem rodeios - dizer que a droga é ruim, que faz mal, que só traz problemas é dizer só meia verdade, que sabemos ser muito pior que a mentira.
 
Não podemos afirmar que é uma doença geneticamente determinada, embora existam evidências significativas de uma herança, de uma predisposição para a vulnerabilidade à doença: as vantagens, os benefícios que são garantidos pelo uso do álcool são determinados por um conjunto de fatores de absorção e transformação do álcool e também por uma capacidade maior de tolerância. Quanto maiores os benefícios e também a tolerância, maior será a probabilidade de desenvolvimento de uma relação de necessidade com as bebidas alcoólicas, sendo estes dois fatores biologicamente determinados; então, a presença de um ou mais alcoólatras na linhagem familiar, será importante para explicar o desenvolvimento da doença em um de seus membros.
 
Quando termino esta explicação sempre surge alguém dizendo:

"Dr., eu sou alcoólatra e não tem mais ninguém na minha família que tenha este problema! Como o Sr. pode explicar esta questão?"

Digo que ele não conhece toda a sua ascendência para poder afirmar que não existiu nenhum outro alcoolista em sua família, que alguém poderia ter herdado esta predisposição e não ter havido a manifestação de doença por falta de condições ambientais facilitadoras.
 
Imaginem alguém, com alta predisposição genética para desenvolver alcoolismo, nascendo em uma nação de hábitos culturais, religiosos e, até mesmo legais, de proibição absoluta de uso do álcool; mesmo com a vulnerabilidade não haverá o surgimento da doença, pois não haverá USO! Sem o uso continuado, e crescente, da droga, não poderá haver o desenvolvimento da dependência!
 
O conjunto de fatores ambientais que contribuem para que existam: o uso, a continuidade deste, as possibilidades de abusos tolerados, ou até incentivados, podem explicar o surgimento da doença, mesmo naqueles casos em que não há evidências de herança familiar. Queremos destacar que o uso de álcool é um comportamento aprendido; pessoas vivendo em um ambiente facilitador - acesso fácil, preço baixo, momentos estimulantes de uso, companhias que gostam do consumo, cultura não repressora do uso e abuso, leis frágeis ou inexistentes, crenças firmadas de que "comigo vai ser diferente", "eu sou mais eu", "não deixarei o álcool me dominar" e outras, terão maiores facilidades para permitir a instalação lenta e gradativa do processo de dependência.
 
É interessante notar, que um dos mitos mais importantes que cercam esta doença, está relacionado às suas causas remotas e não perceptíveis: a maioria das pessoas acha que o alcoólatra desenvolveu aquele quadro por ter PROBLEMAS e não conseguir resolvê-los, que ele apresenta uma fragilidade de personalidade que faz com que ele não saiba beber, que ele não detenha o controle!
 
Porém quando vamos analisar a história de vida daquele bebedor problema, percebemos que, no início de uso, não haviam problemas significativos que pudessem justificar o descontrole futuro; na imensa maioria dos casos o começo é alegre, gostoso, realizado no ambiente familiar, de maneira não problemática! Os problemas surgem depois, já como resultado dos abusos e da dependência.
Em outras palavras:
O ALCOOL É QUE CAUSA PROBLEMAS!

E não:
PROBLEMAS LEVAM AO ÁLCOOL!
Há um momento em que estas duas verdades se confundem na história e não sabemos mais o que começou antes - se o uso e o abuso continuado ou se os problemas cotidianos; mas a análise que realizamos, em um número maior de casos, mostra a primeira condição como explicação.
Enfim, devemos conhecer a história das pessoas, para podermos avaliar a possível origem do alcoolismo e também ponderar a importância dos fatores genéticos e ambientais na determinação da dependência. Vale estar atento à maior probabilidade de dependências variadas, não só de álcool, nos filhos de alcoólatras e iniciar um trabalho SERENO, precoce e constante, de prevenção para diminuir a ocorrência desta possibilidade.